Ibama identifica aumento do desmatamento no Sul da Bahia
Os mais importantes remanescentes de Mata Atlântica do Sul da Bahia ainda não protegidos em unidades de conservação sofrem hoje grave ameaça com a expansão da pecuária. Nessas regiões é visível o aumento de desmatamentos ilegais, principalmente devido a chegada de novos pecuaristas que venderam suas terras em outras regiões para empresas de celulose e outros interessados na produção do eucalipto. Esta é a principal constatação do relatório da operação de fiscalização Mata Viva, encerrado nesta semana pela Gerência Executiva do Ibama em Eunápolis.
Durante oito dias, quatro equipes de fiscalização percorreram cerca de 10 mil quilômetros no Sul e Extremo Sul da Bahia com o principal objetivo de monitorar e fiscalizar denúncias de desmatamentos em formações de Mata Atlântica. A operação priorizou três áreas onde estão localizados os mais expressivos remanescentes florestais e que sofrem hoje forte pressão.
A primeira está localizada em um polígono que abrange os municípios de Mascote, Canavieiras, Camacan, Pau Brasil e Santa Luzia. Parte da região coincide com grandes áreas de cultivo de cacau, que foi inicialmente plantado em consórcio com espécies nativas da Mata Atlântica. A segunda fica um pouco mais ao sul entre os municípios de Santa Cruz de Cabrália, Belmonte e Barrolândia e é atualmente objeto de estudo para a criação de um Parque Nacional.
A terceira área priorizada, onde também é analisada a criação de unidade de conservação pelo Governo Federal, fica no Extremo Sul da Bahia, entre os municípios de Itamarajú e o distrito de Nova Alegria, na região serrana conhecida como Serra de Itamarajú.
Essas três áreas concentram os maiores remanescentes de Mata Atlântica ainda não protegidos por unidades de conservação e são extremamente importantes para a formação de um corredor ecológico no Sul da Bahia. "A manutenção dessa cobertura vegetal é fundamental para permitir a conexão entre os vários fragmentos de Mata Atlântica da região que se encontram cada vez mais isolados", explica Sérgio Bertoche, coordenador do Núcleo de Fiscalização da Gerência Executiva do Ibama em Eunápolis.
Além de concentrar importantes fragmentos de Mata Atlântica, essas áreas também registram o maior número de denúncias de desmatamentos no Sul e Extremo Sul da Bahia. "Principalmente pela chegada de novos pecuaristas na região, que venderam suas terras a altos preços para interessados no cultivo de eucalipto, adquiriram terras com cobertura vegetal a preços bem menores e agora partem para o desmatamento ilegal", explica Sérgio Ramos, chefe do Escritório do Ibama em Ilhéus.
Durante a operação, as equipes de fiscalização do Ibama lavraram 30 autos de infração, no valor total de R$ 519 mil. Só nos municípios de Canavieiras, Santa Luzia e Camacan foram multados 18 proprietários de terra e apreendidos quatro caminhões carregados com 70 metros cúbicos de madeira extraída ilegalmente, além de um trator e oito moto-serras.
- Serrarias lacradas e caminhões de madeira apreendidos
A existência da pressão sobre a Mata Atlântica no Sul da Bahia não é novidade para o Ibama. Neste ano o Ibama já suspendeu atividades de 15 serrarias na região de Camacan por falta de licença ambiental. "Por causa dos embargos, percebemos que a atividade das serrarias está cada vez menor na região. O que constatamos hoje é o aumento de ações de extratores de madeira, que produzem estacas e pranchas dentro mesmo das matas com machados e moto-serras, e que são hoje o principal alvo de nossas ações de fiscalização", informa José Augusto Tosato, Gerente Executivo do Ibama em Eunápolis
No último dia 19 de setembro, após o encerramento da operação Mata Viva, fiscais do Ibama apreenderam nos municípios de Camacan e Belmonte, no Sul da Bahia, seis caminhões carregados com cerca de 50 m³ de madeira extraída ilegalmente de remanescentes florestais de Mata Atlântica. Dois caminhões que levavam carga de vinhático escondida embaixo de lona foram abordados na BR 101. Um com 4 a 5 estéreos de estacas e o outro com 2,5 m³ de pranchões.
Em duas serrarias da região foram apreendidos mais dois veículos carregados cada um com cerca de 15m³ de pau-dalho. Os últimos dois caminhões, que continham 5 toras cada um, foram apreendidos no local em que a madeira era extraída, próximo ao município de Camacan. O primeiro, com 12 m³ de pau-dalho e pequi. O segundo com 4 m³ de ipê. Todos os caminhões e a madeira foram apreendidos. Os motoristas e os responsáveis pelas cargas foram presos em flagrante e encaminhados a delegacias de polícia.
Na última segunda-feira, dia 25, mais um caminhão com toras de paraju da Mata Atlântica foi apreendido na região do distrito de Santo Antônio, no município de Santa Cruz de Cabrália. Desta vez, a carga ilegal estava escondida embaixo de toras de eucalipto.
- Chegando antes do crime
A prioridade do Ibama no Sul da Bahia é investir em fiscalização e monitoramento dessas áreas para chegar ao local antes que o desmatamento ocorra. Um exemplo aconteceu em propriedade rural de 130 hectares localizada às margens do Rio Pardo, no município de Mascote, onde o proprietário já havia iniciado o corte seletivo de árvores. A maior parte da madeira extraída foi vendida a terceiros e uma pequena parte foi utilizada para a construção de um grande curral na propriedade. "Acontece que não existe pasto na fazenda. Toda a mata, boa parte localizada em área de preservação permanente, estava condenada a ser cortada para dar lugar a pastagens, o que foi confirmado por trabalhadores e moradores da região", relata José Augusto Tosato.
Outro exemplo aconteceu em propriedade rural no município de Santa Luzia, onde também já havia sido iniciada extração seletiva de produtos florestais em área de 50 hectares. A devastação estava programada para ser maior. A enorme estrutura do acampamento e a confissão dos trabalhadores acampados revelaram a intenção do proprietário em desmatar todos os 800 hectares da propriedade.
Chegar ao local antes que o desmatamento ocorra é o grande desafio do Ibama, como relata Júlio Rocha, Gerente Executivo do Ibama na Bahia. "Estes poderiam ter sido os maiores desmatamentos de Mata Atlântica deste ano, e nós conseguimos evitá-los. Essa é uma rara oportunidade que temos de chegar ao local antes que o desmatamento ocorra e salvar importantes áreas, o que é nosso maior objetivo. Antes de multar, nossa intenção é garantir a preservação da mata", disse Júlio Rocha.
Durante a operação Mata Viva o Ibama apreendeu ainda 800 pássaros silvestres nos municípios de Itanhém e Medeiros Neto. Na maior apreensão foram encontrados 600 canários-da-terra que seriam comercializados ilegalmente para Pernambuco. Segundo o chefe do Escritório Regional do Ibama em Teixeira de Freitas, João Luiz Monti, as péssimas condições sociais da região acabam empurrando as pessoas para o comércio ilegal de animais silvestres. "Junto com a ação repressiva, percebemos que é necessária uma outra forma de atuação que leve educação ambiental e alternativas de renda a essas comunidades", disse João Luiz Monti. A operação Mata Viva contou com a participação de 13 servidores do Ibama da Gerência Executiva de Eunápolis e dos Escritórios Regionais de Ilhéus e Teixeira de Freitas. (Fonte: MarcoTúlio – Gerência Executiva do Ibama em Eunápolis/BA gerex.eunapolis.ba@ibama.gov.br)
Fonte: MarcoTúlio – Gerência Executiva do Ibama em Eunápolis/BA gerex.eunapolis.ba@ibama.gov.br
21/01/2004
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